João Thomaz, das portas da morte ao recomeço

João Thomaz, das portas da morte ao recomeço

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Crônica com partes baseadas em fatos reais.

Após perder a esposa e a filha para a COVID-19, sem nenhuma esperança na vida, João Thomaz se vê com uma faca dentro da manga da jaqueta surrada, prestes a matar e se matar. O que a vida reservara para ele naquela sinuca de bico?

A história

Como já fazia há vários meses, João Thomaz acordou bem cedo, vestiu a velha roupa surrada, calçou seu tênis velho, meio rasgado, deu comida para os cachorros, Nínive e Tigre, dois Vira-latas com quem dividia sua tragédia existencial e sua solidão após a esposa e a filha morrerem de COVID-19, meses atrás.

Apesar de tudo ele ainda lutava, vivia de bicos, e embora tivesse vários anos de experiência como auxiliar de escitório não achava ocupação em lugar algum, talvez por causa da idade, talvez porque é negro, talvez por ser pobre, talvez fosse a sua roupa surrada, talvez por morar num bairro distante ou talvez porque não iam com a sua cara.

Mesmo assim, todos os dias ele ia a pé até o centro da cidade à procura de um emprego. Seu trajeto era o mesmo de sempre, ele ia em direção da Agência do Trabalhador, mas por onde passava deixava seu currículo onde podia. Na saída da casa simples, alugada, no portão sempre havia várias correspondências de cobranças de contas de luz, água e boletos em geral que ele ignorava.

Ele saía bem cedo e a sua via sacra durava pelo menos duas horas até a Agência do Trabalhador. A Agência sempre estava lotada de outras almas à beira do precipício da vida, a maioria na mesma condição de João Thomaz ou até pior. Apesar do grande número de nomes de vagas fixadas no velho mural na entrada, quase nunca tinha vaga para nada. Era sempre uma tremenda sacanagem.

Faziam as pessoas já desesperadas amanhecerem na fila para pegar uma senha para ver se tinha uma daquelas vagas anunciadas e após várias horas de espera, diante de um atendente sádico, as pessoas ouviam que não tinha a 'vaga pretendida'.

Alguns atendentes até verificavam se tinha alguma outra vaga por mais porcaria que fosse, mas a maioria nem se dava ao trabalho e quase sempre olhando com a cara mais cínica que existe, até rindo, devolviam a Carteira de Trabalho e diziam ao pobre diabo que se quisesse ver outra vaga, deveria pegar outra senha, aguardar a vez novamente e aí então verificar.

Sim, já teve gente que surtou, quebrou cadeira, computador, mas no final acabou indo em cana e levando socos e pontapés dos jagunços disfarçados de segurança e da Guarda Municipal. Toda revolta sempre acabava assim na Agência do Trabalhador, muitas vezes usada para politicagem e, por isso, o povão fazia piadas e dizia que na verdade, ali era a 'Agência do Vereador', já que quase sempre o chefe da Agência era posto como candidato a vereador nas eleições. Era claro, público e notório que haviam favorecimentos a parentes de políticos, amigos de políticos, conhecidos de políticos, cabos eleitorais de políticos, puxa sacos de políticos e esse tipo de caterva em geral.

João Thomaz, que já nem ligava mais para tudo aquilo, mas que ainda esperava encontrar uma vaga de emprego qualquer que fosse, por mais porcaria que fosse, pelo menos podia tomar um café quase sempre sem açucar e um mini pedaço de pão que os politiqueiros deixavam para os 100 primeiros que chegassem todos os dias. Na época de eleição, eles deixavam pão com mortadela e do lado do café sempre tinha uma mocinha ou uma velhinha entregando santinhos do chefe da Agência, na surdina.

Naquele dia, João Thomaz se sentia meio estranho. Ficava lembrando de um sonho maluco que teve no qual as pessoas tinham surtado e estavam quebrando tudo pela cidade. Várias delas tinha invadido a Prefeitura, a Câmara e botado fogo. Anarquia e caos até os ossos, por toda a parte, era o louco sonho que sonhara.

Mas, ele comeu o pedaço de pão, tomou o minúsculo copinho de café e se sentou à espera de sua senha que era a de número 101. No fundo, João sabia que aquela espera era totalmente inútil mas ele não tinha para onde ir, nem o que fazer e achava que só lhe restava ter alguma esperança por mais idiota que fosse.

Sentado do lado de um pilar, bem no fundão, na parede ao lado tinha uma pequena estante, dessas que sempre tem por todas as repartições públicas, com livros velhos, revistas amassadas e jornais do mês passado.

Já que tinha tempo de sobra, João Thomaz passou a vista e notou um pequeno livreto, todo remendado de durex. O nome do livro totalmente 'trash' era: "Carta aos ricos e aos políticos gananciosos e corruptos". O livreto era de um professor da cidade, muito conhecido nos bares e que já havia morrido de tanto beber. 

Era um texto curto, quase uma crônica, no máximo umas 30 páginas. O livro começava com a citação feita por Bobby Kennedy no dia do assassinato de Martin Luther King em 4 de Abril de 1968. João lia atentamente o texto que dizia:

[...] No dia do covarde assassinato do inigualável Dr. King, Bobby Kennedy, irmão do Presidente dos EUA, John F. Kennedy, também covardemente assassinado em 23 de Novembro de 1963, por Lee Harvey Oswald, Bobby, que estava prestes a fazer um discurso eleitoral em Indianápolis, e que foi pego de surpresa por aquele hediondo acontecimento, discursou dizendo: "Eu trago uma notícia triste para vocês, para todos nós e acredito que para todos os cidadãos dos EUA, e para os amantes da Paz em todo o mundo. A notícia é que, Martin Luther King, foi baleado e morto hoje à noite em Mênfis, Tennessee. Martin Luther King dedicou a sua vida ao amor e à justiça entre os seres humanos. Ele morreu por causa dessa luta. Para Aqueles dentre vocês, que são negros, e estão tentados a se deixarem preencher por ódio e desconfiança, por conta da injustiça de tal ato, contra todos os brancos, eu diria que também tenho em meu coração o mesmo sentimento. Um familiar meu foi assassinado mas foi morto por um homem branco. Meu poeta preferido é Ésquilo. Ele escreveu uma vez: "Até mesmo quando dormimos, a dor que não pode esquecer, cai gota a gota no coração, até que em nosso próprio 'desespero', contra a nossa vontade, venha a sabedoria através da terrível Graça de Deus". O que precisamos nos EUA não é divisão. O que precisamos nos EUA não é de ódio, o que precisamos nos EUA não é violência e desordem, mas sim amor, e sabedoria, e compaixão pelos outros. E um sentimento de Justiça para aqueles que ainda sofrem em nosso País, quer sejam brancos ou negros". Bobby também seria covardemente assassinado meses depois, no dia 5 de Junho de 1968 às 12:15, no Hotel Ambassador, com 3 tiros disparados por um Palestino chamado Sirhan Sirhan, logo após Bobby ter vencido as Primárias à Presidência dos EUA pelos Democratas na Califórnia [...].

João Thomaz leu aquilo e lembrou de um trecho de uma série sobre Bobby Kennedy onde uma pessoa ao ser entrevistada na época, após o assassinato de Bobby, disse ao repórter:

"É inacreditável! Sempre que tem alguém querendo fazer a coisa certa pelas pessoas, principalmente pelos mais pobres, algo muito ruim acontece com elas. Mataram o irmão dele que era Presidente dos EUA em 1963, assassinaram o Dr King poucos meses atrás e agora mataram Bobby. Esse mundo não tem mais esperança", disse o homem. 

João, que já tinha perdido a esposa e a filha para a COVID-19, que estava ali sentado esperando o lento passar dos números até o 101, não podia deixar de concordar com o que aquele pequeno livreto estava expondo sobre a história, especialmente, sobre a parte que dizia: 'Esse mundo não tem mais esperança".

Entretido com o livreto, como se tivesse sido tirado do corpo físico, nem ligava para as pessoas que sentavam ao lado, quase que grudadas nele, em plena Pandemia, com centenas ainda morrendo de COVID-19 todos os dias pelo Brasil. Talvez, João não se importasse mais com a morte.

Virando as páginas do livro como virava as páginas da vida, lentamente, ele se deteve em umas citações de Alice no País das Maravilhas.

Eram elas:

"Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então".

“Não posso voltar para o ontem porque lá eu era outra pessoa”.


Por um breve momento, uma certa tristeza tomou conta de João Thomaz. Ao mesmo tempo, como em todas as horas do dia, ele imaginava como poderia ser bom voltar para o ontem, isto é, viajar no tempo. Voltar há alguns meses atrás e tentar evitar a morte de seus entes queridos.

Isso seria possível? Era Impossível? Era o destino? O destino delas já estava traçado, como o destino de milhares de pessoas? Ou tudo isso poderia ter sido evitado se politicopatas, psicopatas, assassinos, corruptopatas, desgraçados, malditos e ignorantes não estivessem no Poder incitando as pessoas à se descuidarem numa Pandemia mortal, empurrando todos ao abismo? Como uma única pessoa poderia, mesmo que voltasse no tempo, salvar seus entes queridos e a todos e mudar o curso da história?

O som da senha toca alto e o traz de volta para a realidade, 58 era o número chamado. O de João Thomaz é o longinquo 101.

Enquanto os números iam sendo chamados à passos de lesma, João foi ao banheiro sujo e fédido, sem água na privada entupida, como ocorre em quase todos os setores públicos. No chiqueiro apelidado de banheiro, os mesmos rabiscos de sempre nas paredes: frases sem nexo, telefone de alguém oferecendo o corpo por dinheiro, loucuras em geral e um poema que chamou a sua atenção.

Na parede amarela já desbotada, o escritor de privada suja deixou escrito o seguinte:

[...]  ""Poemas Rabiscados"
Agora estamos aqui
Não sei por que, nos deixamos levar
Às vezes me divirto, cortando a grama de casa
Às vezes me encontro, me perdendo no jardim
Em meio aos espinhos
Em meio às flores
Em meio aos insetos
Em meio aos tocos de cigarro
Que você jogou da tua boca
Agora ainda estou aqui
Às vezes me divirto lendo coisas antigas
Às vezes me encontro no espelho de um banheiro público
Em meio ao lixo
Em meio aos odores
Em meio aos fungos
Em meio aos rabiscos nas paredes
Que alguém deixou como um último recado..." [...]

João Thomaz sorriu mentalmente e repetiu as duas últimas frases: "em meio aos rabiscos nas paredes, que alguém deixou como um último recado".

E voltou ao lugar onde estava e viu que muitas pessoas já tinham vazado. Numa cadeira próxima, sentou uma mulher que aparentava ter quase a sua mesma idade, algo por volta dos 45 anos. O número chamado era 65. Só tinha dois guichês atendendo.

A mulher olhou para João e perguntou se ele queria outra senha que alguém tinha abandonado, o número era 89. João agradeceu, mas deixou pra lá. A mulher ficou sem entender a recusa de João e nem tentou puxar conversa. João não tinha para onde ir mesmo e o livreto estava quase chegando ao fim. 

Entre senhas chamadas e páginas viradas, ele foi lendo aquele texto com uma história maluca, com citações como a de Bobby Kennedy, Alice no País das Maravilhas, e que também contava uma história parecida com a dele. Nela, o autor do livreto, narrava um história de indignação, de revolta, de um homem em busca de justiça social, na qual, no fim, o personagem escrevia uma "carta aos ricos e políticos gananciosos e corruptos", e esse era o nome do livreto que João Thomaz estava lendo.

A carta no livro e que dava nome ao livro, era um misto sinistro de loucura, terror, desabafo e um Adeus já que o personagem do livro comete suicídio se jogando na frente de um Trem no final. Nela, o personagem dizia:

[...] "Carta aberta aos ricos e políticos gananciosos e corruptos

Com sua ganância, corrupção e desumnidade. Vocês tiraram tudo de nós. Nossos familiares, nossos amigos, nossos empregos, nossos sonhos, nossas noites de sono, nossa sanidade, nossos sorrisos, nossa fé, nossa esperança, nossa alegria e a nossa vontade de viver! Agora que não temos mais nada a perder, vamos fazer justiça por todos os que vocês mataram, prejudicaram e destruíram. Nós somos muitos e estamos em todos os lugares. Estamos  fazendo a sua refeição de manhã, meio dia e à noite, nas suas casas, nos restaurantes que frequentam e até a refeição de suas crianças nas escolas caras e os lanches  dos seus filhos promissores nas Universidades. O que nos impede de botar veneno de rato em suas comidas? Nós estamos nos postos de combustíveis onde vocês abastecem seus carrões! O que nos impede de anotar a placa dos seus carrões e passar a bandidos que adorariam sequestrá-los, assaltá-los e  executá-los?  Nós estamos nas clínicas caríssimas onde vocês consultam ou mudam suas caras, bundas e seios. O que nos impede de invadir essas clínicas sorrateiramente e antes de suas sessões de aplicação mudar os medicamentos para doses erradas e assim ferrar com seus rostos e seus corpos? Nós estamos nos seus celulares, computadores, nos seus modems, vendo seus emails, suas redes sociais e  os sites que vocês frequentam. O que nos impede de mostrar a todos as suas caras de pervertidos e os sites que vocês acessam? Nós estamos em toda parte, coletando seu lixo, limpando sua latrina, cortando seu cabelo, lavando seus carros, preparando suas refeições, passeando com os seus cachorros, varrendo as ruas, na feira lhe vendendo queijo, cuidando de suas crianças,  prendendo bandidos, rezando suas missas, na sarjeta pelas praças da cidade se drogando, dirigindo um caminhão, pilotando um avião, na fila do supermercado, na mesa ao lado no bar ou no café, na recepção do hotel e do motel, no trânsito parado, na  cama deitado a seu lado, num laboratório com um monte de vírus na China ou na Europa, na Casa Branca do lado da chave de um monte de míssil nuclear, na estação espacial ou nos centros de observação, do lado daqueles que podem não avisar a aproximação de um meteoro ou de uma grande rajada de massa solar, nós estamos em todo lugar, caminhando no parque ou na praia num belo dia de sol, vagando pela noite, segurando uma faca, uma arma de fogo, uma ferramenta que pode ser usada como arma ou atrás de um volante, embriagado. Nós somos os espíritos e as vozes daqueles que vocês destruíram e mataram com sua ganância e corrupção. Nós somos as vozes que farão vocês e o seus próximos surtarem. Nós somos as vozes que farão os loucos que cruzarem seus caminhos e atirarem em vocês, nós somos as vozes que dirão aos nóias da rua para te esfaquearem enquanto andam de bike, nós somos as vozes que dirão para a empregada tratada pior que cachorro, assediada e abusada botar veneno na sua comida. Nós somos as vozes que farão os traficantes colocarem venenos nas drogas dos seus filhos mimados, patricinhas e playboys que lhes parecem promissores. Nós surgiremos quando menos vocês  esperarem, sob a luz do sol, quando estiverem se sentindo felizes, seguros, intocáveis, curtindo com dinheiro roubado do povo. À noite, quando vocês estiverem dormindo, invadiremos vossas mentes e almas e faremos vocês terem os piores pesadelos. Nós torturaremos vocês, atiraremos em vocês e os esfaquearemos em sonhos. Nós somos as vozes dos que foram mortos, destruídos e prejudicados por sua ganância e corrupção. Nós os deixaremos loucos, desesperados, suicidas, nós os aterrorizaremos, depois pegaremos aqueles que vocês amam, e por último nós os pegaremos. Até esse momento derradeiro, veremos vocês, gananciosos e corruptos, que se achavam intocáveis, acima de todas as leis, até mesmo da lei Kármica, perderem o sorriso, a fé,  a esperança e a vontade de viver. E antes que algum terrorista os explodam, ou um lunático puxe o gatilho e exploda suas cabeças ou um nóia qualquer lhes acertem várias facadas, vocês saberão como nós nos sentimos e entenderão que tudo tem consequências. Vocês sabem que tudo poderia ser diferente se vocês não fossem podres de mente e de alma, gananciosos, desumanos e corruptos. Nós somos o vosso Karma, o equilíbrio da equação, a centelha da justiça cósmica, os vingadores, as vozes dos que se foram antes do tempo por causa de suas ações malignas. Nós somos legião e somos muitos. Estamos em todos os lugares, mais perto do que vocês possam imaginar e, cedo ou tarde, nós vamos pegá-los!   Estamos a caminho!
Assinado: As vozes dos injustiçados, O Karma vivo, A Legião das Sombras". [...]

João Thomaz leu aquilo e ficou arrepiado, assustado, inquieto e se perguntando que tipo de mente poderia ter escrito uma insanidade como aquela? Mas, ele também sabia que alguma coisa sinistra, poderosa se apossou de sua mente e sua alma já detonadas. Muitas perguntas sem respostas, muita revolta reprimida, muita tristeza silenciada. Um vulcão estava prestes a entrar em erupção?    

Mas, seu número, 101 chegou. Ele foi e recebeu a mesma resposta de sempre: 'não tem vaga para a seu perfil'.

João Thomaz foi embora, sem discutir, tomado de pensamentos de todos os tipos. Seria justo que poucos tivessem muito dinheiro e tudo do bom e do melhor, inclusive os melhores hospitais e tratamentos? Enquanto milhares morriam nos hospitais públicos abarrotados, quase sempre faltando medicamentos, com médicos e enfermeiros exaustos, sobrecarregados? É justo que parentes, amigos e puxa sacos de políticos tenham peferência e sejam favorecidos em vagas de trabalho na Agência do Trabalhador? É justo que 1% da humanidade detenha 99% das riquezas de todo o Planeta? É Justo que grandes filhos da puta estejam por aí 'vivinhos da Silva', com grana e poder, já ricos e ainda assim roubando o povo, atrasando a vida das pessoas enquanto pessoas boas e inocentes como sua esposa e filha estão mortas, como milhares de pessoas pelo País? É justo que grandes desgraçados ricos corruptopatas e políticos politicopatas vivam de boas impunemente? Se perguntava mentalmente, João Thomaz, enquanto gastava a sola do velho tênis até a casa no bairro distante.

Chegando em casa, luz cortada. Sem dinheiro pra pagar os meses atrasados para religar. Os cachorros sem ração e o dono da mercearia já não lhe vendia mais fiado por que a conta 'já estava alta' e ele sabia que João Thomaz estava desempregado, fodido na vida.

Um desejo pofundo de se matar tomou conta da mente de João. Mas, estranhamente, ele resolveu não pensar muito nisso e foi fazer o arroz e o macarrão que ainda tinha e dividiu com os cachorros que o olhavam com aqueles olhinhos tristes, abanando o rabinho, sabendo que no fundo, o coitado do João Thomaz tentava sair daquela situação horrível e sabiam, com a sabedoria de todos os bichos deste mundo, que no fundo, João era uma pessoa boa, de um grande coração que, infelizmente, teve azar na vida, apesar de se esforçar para viver dignamente.

João olhava para os cachorros e chorava copiosamente. Que farei desta minha desgraçada vida? Se perguntava. Os bichos, com a compaixão mais pura que há em todos os seres puros desse mundo, se aproximavam de João e o lambiam, botando uma das patinhas sobre seus braços, como que dizendo: 'força João!'.

Profundamente triste. João foi dormir.

No dia seguinte, a mesma via sacra se apresentava. No entanto, João escreveu num papel:

"Por favor, quem encontrar esse recado, já saberá que estou morto. Eu tentei, mas não consigo mais. Por favor, ajudem a Nínive e o Tigre porque nem comida eu consigo mais comprar pra eles e não aguento mais voltar para esta casa e ver eles sofrendo com fome, e não poderia soltá-los para as ruas. Enfim. Já perdi tudo. Meu tempo aqui, pelo visto acabou. Só me resta encarar a realidade que é puxar a tomada e me desligar na esperança que um dia renasça numa situação melhor e possa fazer mais coisas por mim, pelos bichos e pelas pessoas à minha volta. Adeus e obrigado! Quem encontrar esse recado pode ficar com essa casa. Apenas cuide da Nínive e do Tigre por mim! Fiquem bem!".


Ele escreveu, chorou, fumou um cigarro, olhou para as árvores, para o céu, calçou o velho tênis, pegou uma faca, a afiou e foi para a Agência do Trabalhador. Na mente, matar o chefe da Agência e se matar. "Pelo menos levo um desses desgraçados comigo", dizia mentalmente.

À medida que caminhava, João Thomaz via as pessoas, os bichos nas ruas, olhava para o céu, via os pássaros, observava o movimento das pessoas, dos carros, das coisas e tentava se convencer de que o que faria 'não era certo mas necessário'.

Ao chegar na Agência, fez a mesma coisa de sempre, pegou uma senha, tomou café, comeou o pão com mortadela. Já era época de campanha. E João pensou: espero o desgraçado chegar, espero ele entrar na sala, chego lá como quem não quer nada, fecho a porta, meto umas facadas no pescoço dele e depois me mato cortando minha garganta.    

Dito e feito, o chefe politiqueiro da Agência chegou e foi pra sala. João ficou esperando as pessoas saírem. Ele esperou, esperou, esperou um tempão.

Quando viu a oportunidade foi em direção da sala. Mas, suando frio, primeiro entrou no banheiro sujo de sempre. Com a faca afiada, olhou pro pedaço de espelho quebrado, pensou na esposa e na filha, no olhar triste de Nínive e Tigre, na luz cortada, na injustiça do mundo, nos políticos e ricos corruptos, no livro maluco, na carta sinistra do livro, nas justificativas que inventou para si, se preparou e tomou coragem. "É agora! Chegou a hora do Adeus", disse para si mesmo. Olhou novamente para o pedaço de espelho quebrado e falou: 'desculpem! Me perdoem, talvez um dia eu as reencontrarei!'. E saiu com a faca escondida dentro da manga da velha jaqueta.

Ao abrir a porta do banheiro, um homem que esparava a vez o viu suando frio, de máscara contra a COVID-19, com olhos profundos, marejados. A mente de João não estava mais ali naquele mundo. Ele passou pelo homem como se ele não existisse e chegou à sala do chefe da Agência.

Entrou rapidamente pela porta, o chefe da Agência estava no telefone. João o visualizou, suava frio.

Passou os dedos na ponta da faca que estava dentro da manga e só dizia a si mesmo mentalmente: 'é agora, é agora, é agora'. Quando deu um passo para trás, pegando na maçaneta da porta para fechar a sala e cometer o assassinato. O chefe da Agência disse a ele: você já faz tempo que vem aqui não é? Eu tenho te observado! João suando frio e pego de surpresa responde que sim. Que faz meses que vem em busca de algo.

O chefe da Agência diz: cara, eu tenho uma coisa para você. Só não fala nada pra ninguém porque senão vai dar B.O pra mim. Senta aí.

Desnorteado, João senta, com a faca debaixo da manga. Suando frio. E o chefe da Agência pede seu currículo. João o entrega. O sujeito vê e diz: porra, você tem tudo isso de experiência? E ninguém viu se tinha alguma coisa pra você todo esse tempo? João responde: 'pois é'.

Ainda aturdido, João escuta o cara falar, falar e falar enquanto passa os dedos na ponta da lâmina, ainda com a intenção de matar e se matar.

E o cara lhe oferece um emprego de auxiliar de manutenção do prédio da Agência. João sente como se tivesse levado uma paulada na cabeça. O quê? Como assim? E um monte de vozes explodem na cabeça de João: mata ele porra! Vai meu! Já acabou pra você nessa merda de mundo! Vai ficar fazendo o que aqui sozinho? Meta a faca nesse desgraçado! Vai!!! E uma porrada de coisas e memórias se passam rapidamente ao mesmo tempo na cabeça de João Thomaz.

Mas, subitamente, ele volta à si, à realidade e aceita a proposta. Diante da vida e da morte, da desgraça total, da falência total, do fim iminente, da tragédia que estava prestes a acontecer, um raio de luz toca a vida de João Thomaz. E ele conta um pouco de sua história e suas perdas. O chefe da Agência, embora um politiqueiro daquele naipe que todos já conhecem, inexplicavelmente, dá uma grana pro João pagar a luz atrasada, pagar a mercearia e conseguir comida para si e para os únicos familiares que ele tinha nesse mundo: Nínive e Tigre e que para eles voltaria em breve.

Completamente desnorteado, com a faca na manga da jaqueta velha, João Thomaz agradeceu ao chefe da Agência que pediu que ele estivesse na Segunda às 7 da manhã para começar o trabalho.

E assim se deu. João recomeçou. Dos portais da morte e da desgraça, para a vida que segue, com os bons amigos de quatro patas, aguentando o que já passou, o que se passa e o que passará.  

Um mês depois, já trabalhando na Agência, João foi até a sala do chefe e viu uma mulher, parecia gente boa. Estava sentada na mesa do homem que lhe abriu uma porta. João perguntou: e o chefe? A mulher lhe respondeu. Você não soube? Ele teve COVID, foi para a UTI, não resistiu e infelizmente morreu no final de semana. Foda demais. Mas, vida que segue.

João ficou atônito, sem palavras. A nova chefe disse-lhe: você é o João Thomaz né? Sim sou, respondeu. O Rodrigo, o falecido Rodrigo, disse que via potencial em você, não sei porque ele te ajudou, ele não era muito de ajudar ninguém fora da panelinha sabe? E eu vi teu currículo e já falei com o pessoal de cima, na segunda você começa sua nova função, como atendente, lá na frente à princípio, depois vamos treiná-lo nos guichês. Tudo bem?   

João Thomaz, sem palavras. Da perda de tudo, da esperança, da fé no mundo e nas pessoas, saído diante dos portais da morte, da desgraça, da tragédia, dos trancos aos barrancos, recomeçou.

Naquele mesmo dia, ele pegou o livreto, pegou o trecho do livreto sobre o Bobby Kennedy com a citação dele com a frase de Ésquilo, reescreveu num papel e resolveu carregá-la e lê-la todos os dias, na hora que acorda e na hora que vai dormir, para Nínive e Tigre, nos túmulos da esposa, da filha e do chefe da Agência sempre que pode ir ao cemitério, geralmente aos domingos.

E toda vez que João Thomaz lê o trecho do livreto que reescreveu, falando com seus mortos ou falando com as pessoas que começaram a fazer parte de sua estrada evolutiva, ele cita a sua própria readaptação do dicurso do Bobby Kennedy:

"Bobby Kennedy disse no dia da Morte de Martin Luther King em 4 de Abril de 1968, para uma multidão desnorteada e incrédula com a notícia do covarde assassinato: Martin Luther King dedicou a sua vida ao amor e à justiça entre os seres humanos. Ele morreu por causa dessa luta. Para Aqueles dentre vocês, que são negros, e estão tentados a se deixarem preencher por ódio e desconfiança, por conta da injustiça de tal ato, contra todos os brancos, eu diria que também tenho em meu coração o mesmo sentimento. Um familiar meu foi assassinado mas foi morto por um homem branco. Meu poeta preferido é Ésquilo. Ele escreveu uma vez: "Até mesmo quando dormimos, a dor que não pode esquecer, cai gota a gota no coração, até que em nosso próprio 'desespero', contra a nossa vontade, venha a sabedoria através da terrível Graça de Deus".

O que precisamos no "MUNDO" não é divisão. O que precisamos no "MUNDO" não é de ódio, o que precisamos "NO MUNDO" não é violência e desordem, mas sim amor, e sabedoria, e compaixão pelos outros. E um sentimento de Justiça para aqueles que ainda sofrem em nosso MUNDO, quer sejam brancos ou negros", lia João diante dos túmulos quase todo os domingos.

 

(Texto de Emerson Rodrigues/Eghus Kaninnri. Blog Realismologia)

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  • AVISO: Todos os direitos reservados ao autor. Proibida toda e qualquer utilização comercial ou venda sem autorização expressa do autor, sob pena de processos judiciais. Proibida toda e qualquer utilização não comercial e acadêmica sem a citação da autoria, com link do blog devidamente informado: EGHUS KANINNRI, BLOG: REALISMOLOGIA.

 

Brasil, 23 de Setembro de 2021.


Nota informativa sobre a tradução da citação feita por Bobby Kennedy: A tradução utilizada no presente texto acima, é da tradução da Série da Netflix: 'Bobby Kennedy para Presidente'.

A BBC Brasil, em uma publicação, fala sobre o trecho citado por Bobby Kennedy do Poema de Ésquilo. Diz a BBC:

[...] "Meu poeta favorito é Ésquilo", disse Kennedy à plateia, antes de citar um trecho de Agamemnon, tragédia grega de autoria do dramaturgo, traduzida pela historiadora Edith Hamilton em 1930: "Em nosso sono,a dor que não se pode esquecer cai gota a gota no coraçãoaté que, em nosso desespero, contra nossa vontade,a sabedoria vem a nós pela sublime graça de Deus."

Kennedy cometeu, na verdade, um ligeiro equívoco ao fazer a citação, substituindo "despeito" (despite, em inglês) por "desespero" (despair). Na gravação, em meio aos soluços na multidão, você pode observar que ele faz uma pausa em 'des', como se não tivesse certeza da segunda sílaba. Como Christopher S. Morrissey escreveu, é difícil saber "se ele citou erroneamente deliberadamente, fortuitamente ou infelizmente".

Mas o fato é que suas palavras moderadas tiveram um efeito poderoso. O público em Indianápolis se dispersou em silêncio, diferentemente do que aconteceu em outras 110 cidades dos EUA em que houve tumulto após o anúncio da morte do ativista negro.

Na manhã seguinte ao assassinato de Luther King, Kennedy falou em Cleveland, no Estado de Ohio, sobre "a ameaça insensata da violência". Ele condenou não só a violência das balas e das bombas, mas "a violência das instituições; a indiferença, a inação e a lenta decadência", assim como a alienação que nos leva a "olhar para nossos irmãos como alienígenas: homens com os quais compartilhamos uma cidade, mas não uma comunidade; homens ligados a nós por uma moradia em comum, mas não por um esforço comum ".Luther King pregava sobre estarmos "entrelaçados em um único tecido do destino". E Kennedy estendeu a metáfora: "Sempre que rasgamos o tecido da vida que outro homem de forma dolorosa e desajeitada teceu para si próprio e para seus filhos, toda a nação é degradada". [...] (BBC Brasil)

(Com imagem de blog Espelho Azul WordPress)


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